#46 É difícil se despedir de você mesma
É difícil se despedir de você mesma
Bem, não estou morrendo literalmente! Me desculpe quem achou que sim, meus títulos são bem sensacionalistas às vezes.
Mas meio que realmente estou morrendo, minhas células morrem e nascem todos os dias, micro-organismos morrem todos os dias, a cada segundo, em meu corpo. Mas o que eu quero dizer é que minhas versões estão morrendo.
E, se você for parar para pensar nas suas versões que já morreram e nessa que pode morrer a qualquer momento, vai perceber que a gente nunca sabe quando estamos renascendo. Eu sempre fui uma pessoa meio autêntica, nunca tive apego à minha aparência, mas essa versão minha já morreu. Eu virei adulta (ou quase). É difícil se manter empregada com sobrancelhas descoloridas e cabelo colorido, as pessoas não te levam a sério — pelo menos não no meio em que eu queria trabalhar na minha antiga versão.
Cursei dois semestres de Medicina Veterinária e, apesar de amar bichos, eu não estava disposta a estudar cinco anos, pagar milhares de reais para, no final, sair desempregada e ganhando 180 reais por 12 horas trabalhadas. Meus pais não são veterinários e nem podem abrir uma clínica para mim. Essa é a versão da Isabella do ano passado, e eu sinto falta dela.
Mas já tive muitas versões com sonhos malucos, como quando eu quis cursar Cinema. Eu gravava vídeos de POV com personagens na pandemia, até que bastante gente assistia. Em outra época, eu quis fazer Moda, meus desenhos até que eram maneiros.
Já quis fazer Nutrição, cursar Artes Visuais na universidade de Nova York (ô mulher, que autoestima boa), ser médica, fazer Psicologia, Publicidade e Propaganda, Dança, Biologia, Design, Arquitetura, História, Letras e agora Jornalismo.
Muitas das pessoas que já passaram pela minha vida não me conhecem mais. Têm uma memória de uma Isabella que não existe mais, talvez uma apaixonada demais pela vida, inocente e emocionada; uma Isabella antissocial; uma Isabella mais tímida, que não conversa direito; uma Isabella sem opinião e com medo do que os outros pensavam dela; a Isabella não assumida; aquela que era agressiva e nada emotiva com as pessoas. São tantas versões minhas que as pessoas têm na mente delas, e as pessoas que estão na minha vida hoje não conhecem essas versões.
Tenho amigas que estão comigo desde o 6º ou 7º ano, e elas passaram por todas essas minhas fases, mesmo que distantes. É estranho pensar que existem versões nossas na cabeça das pessoas que não fazem parte da gente há muito tempo.
Sinto que estou perdendo minha autenticidade, e talvez isso faça parte da vida adulta. Por mais que a gente seja livre, nunca somos 100%. Às vezes, uma mudança de cabelo bem radical ou de estilo faz você perder o que conquistou, pelo simples fato de que as pessoas não conseguem aceitar aquilo que é diferente — claro que depende muito do meio em que você está inserida.
A Isabella que criou esse blog já não está aqui há muito tempo. Eu tinha 15, 16 anos. Isso aqui era só um hobby, um diário para que meus amigos pudessem ler a nossa rotina pela minha perspectiva. Hoje, com 19 anos, eu vejo o blog de uma maneira diferente, uma espécie de portfólio, algo mais “maduro”.
Com tudo isso, eu queria dizer que estou pensando em mudar o nome do blog. Penso nisso todos os dias. Querendo ou não, quando coloquei esse nome, eu pensava diferente. Como disse um milhão de vezes neste texto, era outra versão minha. Mas muitas pessoas conhecem o blog com esse nome, e talvez eu perca a única parte que restou da minha antiga eu. Enquanto não decido, vou continuar mudando a aparência para ver se parece mais com a eu de agora.
Mas toda vez que penso em como me perdi, sem perceber, em como mudei, é estranho pensar que a gente também muda. Tenho amigos que eu nem conheço mais. Eles mudaram e, quando isso aconteceu, eu me senti mal por perder um amigo. Eu não entendia como uma pessoa podia mudar do nada. Mas a real é que isso também aconteceu comigo, muitas vezes, e que esses mesmos amigos devem pensar a mesma coisa de mim.
Sempre tive dificuldade em aceitar finais, como mencionei em uns textos atrás. Eu nunca aceitei 100% que as outras Isabellas se foram para sempre, e talvez nunca aceite. No fundo, cada uma delas, mesmo que uma pequena parte, ainda está aqui. Eu continuo escrevendo como antes, continuo desenhando, dançando, sendo estranha, fazendo edits e lendo livros. Todas ainda estão aqui. Elas sempre vão estar aqui.
Espero que minha futura versão, não desista do blog, porque é algo muito significativo e importante para mim, por mais que eu escreva bem pouco nele.
-Isabella Almeida





Entendo muito o que você quer dizer. Estou no terceiro período de Direito e em breve vou realmente atras do meu sonho, começo jornalismo em Agosto e eu apenas sei que vou ser mais feliz assim. Apesar de, como você disse “quase adulta”, muitas vezes sinto como se quem me comandasse fosse a versão de quem eu era aos 13 anos, e honestamente, é difícil parar de ser ela, Em decisões, sonhos e mágoas. Entendo completamente teu sentimento amiga !
eu penso que nem você